O que mudou em três anos da crise Yanomami: lideranças apontam o que ainda falta na maior terra indígena do país

  • 20/01/2026
(Foto: Reprodução)
Indígenas em atendimento na Casa de Saúde Yanomami (Casai) em Boa Vista no dia 19 de janeiro de 2026 Urihi Yanomami/Divulgação Em 20 de janeiro de 2023, quando o governo federal decretou situação de emergência na Terra Yanomami, indígenas foram encontrados com sinais de desnutrição, malária e centenas de mortes. Exatos 1.096 dias depois, nesta terça-feira (20), o cenário é diferente: há redução nos casos de doenças e nas mortes, resultado de ações de saúde no território. Apesar dos avanços, lideranças indígenas afirmam que a presença de garimpeiros ainda preocupa. A Terra Yanomami é o maior território indígena do Brasil com quase 10 milhões de hectares entre os estados do Amazonas e Roraima, onde está a maior parte. Mais de 33 mil indígenas vivem na região, em 417 comunidades, de acordo com dados mais recentes do Ministério da Saúde. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp Três anos depois, o garimpo ainda assombra a população indígena. O líder Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, a mais representativa do povo, afirma que ainda há invasores no território. Estou acompanhando essa ação do governo de três anos e, na opinião do povo Yanomami, essa ação não melhorou totalmente o que queríamos, principalmente os invasores na Terra Yanomami. O g1 procurou o governo federal, por meio do Ministério da Saúde, Casa de Governo e Casa Civil sobre o assunto, mas não recebeu resposta até a última atualização. Antes do decreto, lideranças indígenas já denunciavam o abandono vivido pelo povo Yanomami. Em algumas imagens, adultos e, principalmente, crianças apareciam em grave estado de desnutrição, com os ossos à mostra, além de precariedade na assistência de saúde. Nos primeiros meses de reconhecimento da crise, profissionais de saúde atendiam crianças de 4 anos que pesavam o equivalente a um bebê. Ao longo primeiro ano da crise, os esforços se concentraram no fortalecimento da saúde, com a realização de atendimentos emergenciais e operações de combate ao garimpo. No ano seguinte, foi criada a Casa de Governo, com o objetivo de manter ações efetivas e contínuas no território. Criança com costelas aparentes no colo do pai Yanomami em hospital de Boa Vista, em 2023. Caíque Rodrigues/g1 RR/Arquivo O garimpo ilegal agravou a situação de saúde entre 2019 a 2022, com aumento de casos de desnutrição, malária e outras doenças. A atividade também provocou desmatamento, contaminação dos rios por mercúrio e danos à caça e pesca. Em outubro de 2025, o g1 mostrou que quase três anos após o decreto de emergência na Terra Yanomami, o garimpo seguia ativo, destruindo roças contaminando rios com mercúrio e, consequentemente, provocando desnutrição e impactos na rotina dos indígenas (relembre no vídeo). Lideranças denunciam garimpos ativos e falhas graves na saúde Yanomami LEIA TAMBÉM: Terra Yanomami segue sob ameaça quase 3 anos após emergência; lideranças denunciam garimpos A corrida pelo ouro no Brasil: como o garimpo ilegal ameaça os povos indígenas Imagens inéditas mostram aviões e áreas destruídas pelo garimpo ilegal na Terra Yanomami quase 3 anos após emergência Redução nas mortes, mas preocupação com a malária No início da crise sanitária, em 2023, a fome e as doenças causavam a morte de centenas de indígenas na Terra Yanomami. Entre janeiro e junho daquele ano, 217 indígenas morreram vítimas de desnutrição, malária, infecções respiratórias agudas (IRA) e outras causas. ➡️ Três anos depois, os números caíram. No mesmo período de 2025, foram registrados 157 óbitos, uma redução de 27,6%, segundo o boletim mais recente do Centro de Operações de Emergência em Saúde Yanomami (COE), do Ministério da Saúde, divulgado em 13 de novembro do ano passado, com dados até junho. Não há previsão para a divulgação de números atualizados. Ainda segundo o boletim, a principal causa de mortes no primeiro semestre de 2025 foram as chamadas “causas externas”: 56 registros. Em seguida aparecem as infecções respiratórias agudas, com 29 óbitos, e causas perinatais e anomalias congênitas, que causaram 20 mortes. A desnutrição provocou 10 mortes no período. Já a malária, uma das maiores preocupações do povo Yanomami, vitimou três pessoas. Em 2023, 10 morreram pela doença. Apesar da redução, a malária segue como alerta para as lideranças. Waihiri Hekurari Yanomami, presidente da associação Urihi, foi um dos principais responsáveis por expor a situação quando o território estava com forte presença do garimpo. Atualmente, ele reconhece os avanços, mas cobra mais transparência do governo federal em relação à saúde. Os dados mais recentes disponibilizados são referentes a junho de 2025. “Hoje não tenho muitas informações, os verdadeiros dados da saúde Yanomami”, disse, acrescentando não sabe se atualmente as comunidades recebem visitas regulares ou se estão sendo tratadas no território". “Pedimos ao Ministério da Saúde que crie um canal para nós acompanharmos todas as informações sobre a saúde Yanomami, principalmente onde estão as comunidades mais vulneráveis, Xitei, Parima, na região de Surucucu. A gente precisa acompanhar o que realmente melhorou e o que falta", ressaltou. Para Dário Kopenawa, o governo federal precisa investir em planejamento estratégico e ações de inteligência, ampliar o atendimento e combater doenças que ainda afligem os indígenas. “Principalmente a malária, diarreia e a pneumonia. Em algumas regiões, existem sintomas de tuberculose. O governo tem que fazer uma ação com inteligência para eliminar essas doenças que atacam as pessoas. Hoje, há muita malária e poucas ações do governo em algumas regiões", disse o líder indígena. Quando a crise explodiu, no primeiro trimestre de 2023, o governo federal confirmou 14.018 casos de malária no território. Em 2025, foram registrados 14.233 casos, um aumento de 1,5% em relação ao mesmo período. Apesar disso, o boletim do COE aponta redução da letalidade e destaca que a vigilância manteve alta capacidade de detecção da doença. Desde o decreto de emergência, o Ministério da Saúde reativou sete Polos Base. Atualmente, são 77 unidades de saúde em funcionamento no território — 40 Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI) e 37 Polos Base, segundo o órgão. Centro de Referência em Saúde Indígena Xapori Yanomami tem capacidade para 120 leitos-rede. Lucas Wilame/Rede Amazônica Em 2025, também foi inaugurado o primeiro hospital indígena do Brasil dentro da Terra Indígena Yanomami. O Centro de Referência em Saúde Indígena Xapori Yanomami fica em Surucucu e atende cerca de 60 comunidades, alcançando aproximadamente 10 mil pessoas, com serviços de urgência, emergência, consultas, exames e tratamento de doenças. Outra medida adotada foi a ampliação das equipes. O número de profissionais atuando no território quase triplicou e chegou a 1.855 servidores — um aumento de 169% em relação aos 690 que trabalhavam na região há três anos. Entre eles estão técnicos em enfermagem, médicos, enfermeiros, dentistas, farmacêuticos, nutricionistas e profissionais de outras 32 categorias. Kopenawa destaca que, além da presença, é fundamental que as equipes de saúde conheçam a realidade e as especificidades da saúde indígena. “Precisa de equipes bem capacitadas, com profissionais que conheçam a Terra Yanomami e a nossa saúde. Médicos e especialistas têm que entrar no território e entender quais são os vetores que atacam o povo Yanomami, principalmente em relação à malária”, afirmou. Initial plugin text Garimpo persiste e preocupa Embora o governo federal, por meio da Casa de Governo, afirme que o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami tenha reduzido, lideranças indígenas ainda denunciam a permanência da atividade ilegalmente em algumas regiões do território. Segundo o governo federal, ao fim de 2025 a área identificada como garimpo ativo caiu para 56,13 hectares. No ano anterior, quando a Casa de Governo foi implantada, a atividade ocupava cerca de 4.570 hectares — uma redução de 98,77%. Apesar da queda indicada nos números do governo, alertas do sistema de monitoramento da Hutukara Associação Yanomami, apontam que ainda há garimpos ativos nas regiões de Waikás, no rio Uraricoera, e Catrimani, áreas historicamente impactadas pela atividade ilegal. “Os invasores continuam entrando na Terra Yanomami, continua subindo de barco, continua pousando os aviões, continua pousando os helicópteros. Então isso continua na Terra Yanomami, os garimpeiros entrando”, afirma Dário. O sistema, operado pelos próprios indígenas que vivem nas comunidades, registrou a presença de balsas de garimpo no Baixo Catrimani, além de helicóptero e avião em voos clandestinos nas regiões de Auaris e Alto Catrimani. As informações são reunidas em relatórios e enviadas ao governo federal com cobrança de providências. Um dos registros mais recentes foi feito no dia 19, no mesmo dia em que a Funai, com base em números do governo, divulgou a redução do garimpo. No ano passado, a Hutukara havia alertado para a persistência da atividade ilegal no território. Avião é fotografado em região com presença de garimpeiros na Terra Yanomami em Roraima Hutukara/Divulgação Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.

FONTE: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2026/01/20/o-que-mudou-em-tres-anos-da-crise-yanomami-liderancas-apontam-o-que-ainda-falta-na-maior-terra-indigena-do-pais.ghtml


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