'Não conseguia acreditar que meu torturador vivia livremente nos EUA': os venezuelanos que reconheceram em novela na TV militar que os prendeu

  • 15/03/2026
(Foto: Reprodução)
Rafael Quero Silva foi comandante da Guarda Nacional Bolivariana em Barquisimeto, na região centro-oeste da Venezuela, e foi encarregado da repressão aos protestos contra o governo nos anos de 2013 e 2014. Gentileza jornal El Impulso María Elena Uzcátegui teve uma sucessão de sentimentos, da incredulidade à indignação, quando soube que o militar venezuelano Rafael Quero Silva, acusado de tortura por ela e por mais quatro venezuelanos, trabalhava como figurante de telenovelas emMiami, nos Estados Unidos. Nos anos de 2013 e 2014, o tenente-coronel Quero Silva foi comandante do Destacamento 47 da Guarda Nacional Bolivariana no Estado de Lara, no centro-oeste da Venezuela. Naquele cargo, ele liderou a repressão aos protestos contra o governo de Nicolás Maduro. E, segundo Uzcátegui, Quero Silva se encarregou pessoalmente de invadir sua casa e detê-la. Ela foi enviada para a prisão de segurança máxima de Uribana e se tornou a primeira mulher presa por motivos políticos a ser mantida naquele local. Veja os vídeos que estão em alta no g1 "Quando fiquei sabendo, perguntei: 'O que é isso?'", relembra ela, sobre a participação do tenente-coronel em telenovelas. "Como é possível que alguém que foi torturador, que mandou matar e fez sofrer tantas pessoas, viva agora livremente nos EUA, feliz da vida?" "E, agora, também é artista! Eu não conseguia acreditar que aquilo era verdade. Depois de tudo o que ele fez na Venezuela, que enorme injustiça!", declarou Uzcátegui à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. A notícia de que Quero Silva se encontrava em Miami se espalhou rapidamente em 2018, quando membros da diáspora venezuelana o reconheceram ao interpretar, entre outros, o papel de policial na telenovela Mi Familia Perfecta, da rede de TV Telemundo. Na época, Uzcátegui morava na Colômbia. A notícia chegou a ela pouco depois, quando agentes do FBI entraram em contato com ela como parte de uma investigação sobre o ex-militar venezuelano. Sete anos se passaram para que aquela indignação desse lugar à surpresa e uma certa esperança. A presença de Rafael Quero Silva nos EUA foi detectada por membros da comunidade venezuelana em Miami, que o viram interpretando um policial na novela Mi Familia Perfecta, da rede de TV Telemundo. Telemundo Perto de ser deportado No final de fevereiro de 2025, agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) detiveram Quero Silva em Miami. Ele foi considerado "estrangeiro ilegal e criminoso da Venezuela". Segundo informado pela imprensa americana, as autoridades migratórias descobriram que o ex-militar venezuelano havia entrado nos EUA em 2016 e permanecido no país além do período permitido pelo seu visto. A notícia da detenção causou forte impacto a Uzcátegui, que novamente não acreditava no que estava vendo. Mas, desta vez, de forma mais positiva. "Quando fiquei sabendo que ele havia sido preso, aí, sim, é verdade... fiquei como que em choque, porque o impensável aconteceu", relembra ela. "Eu não conseguia acreditar no que estava se passando. Até chorei. Eu tinha tantos sentimentos desencontrados que não sabia como me sentia." Após a detenção, Quero Silva foi submetido a um processo migratório concluído em novembro passado, quando um juiz determinou que ele "havia participado de violações aos direitos humanos na Venezuela" e ordenou sua saída do país. Quero Silva está detido no centro para migrantes Krome, em Miami. Ele recorreu da decisão para evitar ser deportado. Paradoxalmente, Uzcátegui não quer a deportação, para que ele possa responder à ação civil apresentada por ela, ao lado de outros quatro venezuelanos, perante a Justiça americana. A Guarda Nacional Bolivariana teve papel central na repressão dos protestos contra o governo que agitaram a Venezuela desde 2013. AFP via Getty Images Primeiro militar venezuelano acusado por suas vítimas A ação legal contra Quero Silva se baseia na Lei de Proteção às Vítimas de Tortura dos EUA (TVPA, na sigla em inglês). Ele é acusado de ter ordenado, autorizado e supervisionado a tortura de manifestantes e pessoas detidas, incluindo os cinco autores do processo. A ação foi apresentada no final de 2025, com apoio jurídico do Centro Guernica 37, uma ONG internacional dedicada à defesa dos direitos humanos e responsabilização. Uma das diretoras dessa organização, Almudena Bernabéu, explica por que se optou por uma ação civil e não penal. Nos EUA, pessoas físicas não podem apresentar ações penais, pois elas dependem exclusivamente do Departamento de Justiça. Mas, nem por isso, elas deixam de ser importantes. "Este é um processo civil que se desenvolve em um tribunal, com um juiz com experiência penal e um júri de 12 pessoas que decide sobre a culpabilidade", explica a advogada. "Ou seja, o trâmite, de fato, é equivalente ao de um processo penal, mas o resultado não é uma sentença de absolvição ou condenação, mas sim ações punitivas e um montante a pagar como compensação pelo que foi sofrido." O processo também tem valor simbólico, pelo que isso pode representar no contexto das denúncias de violações aos direitos humanos ocorridas na Venezuela, desde a chegada do chavismo ao poder. "Esta é a primeira ação legal contra membros das forças de segurança venezuelanas em tribunais nacionais", segundo Bernabéu. "Houve tentativas na Argentina contra Maduro, mas elas não prosperaram por questões de imunidade e outras." "Na Espanha, houve outras tentativas que também fracassaram. Mas esta ação civil já prosperou e segue adiante. É a primeira deste tipo e acredito que seja muito importante para a comunidade venezuelana." Andrés Colmenarez é outro dos cinco autores da ação. Ele destaca mais um elemento que faz com que este processo seja único. "É o primeiro caso em que um militar venezuelano é levado à Justiça pelas próprias vítimas", destaca ele à BBC. Perseguidor perseguido? Rafael Quero Silva com seu uniforme da Guarda Nacional Bolivariana, durante os anos de repressão de protestos. Gentileza jornal El Impulso A ação civil contra Quero Silva foi apresentada por cinco venezuelanos detidos em Barquisimeto, a capital do Estado de Lara, por membros da Guarda Nacional Bolivariana, durante os protestos contra o governo da Venezuela ocorridos entre 2013 e 2014. "Quero Silva não só ordenou e autorizou, como também participou diretamente da violenta repressão aos protestos", destaca o documento apresentado no distrito sul do Estado americano da Flórida. "Ele trabalhou lado a lado com a unidade da GNB sob sua autoridade. Ele participou diretamente da violência contra os manifestantes, incluindo sua tortura enquanto estavam sob custódia." A BBC News Mundo pediu entrevista ao escritório de advocacia que representa o ex-militar venezuelano, mas o pedido não foi atendido até a publicação desta reportagem. Os autores da ação denunciam ter sofrido torturas, maus tratos, golpes, humilhações, privação de água, alimentos, sono, serviços sanitários, acesso a chamadas telefônicas e contato com a família. Além disso, um dos autores recebeu um disparo no abdômen e outro sofreu tiros de pressão a curta distância nas costas e no rosto, por parte dos membros da GNB. O documento também destaca que Quero Silva "ordenou diretamente e supervisionou a tortura de indivíduos detidos no Destacamento 47, incluindo três dos autores". Um deles é María Elena Uzcátegui. 'Rainha das barricadas' A Guarda Nacional Bolivariana destacou vários membros para o complexo residencial onde morava María Elena Uzcátegui, antes de invadir sua residência e detê-la. Gentileza María Elena Uzcátegui Mais de uma década depois, Uzcátegui garante que ainda não sabe por que Quero Silva pareceu se interessar tanto por ela. Ela conta que participou dos protestos iniciados em fevereiro de 2014, mas nunca teve papel de destaque. "Eu entrei nos protestos como milhões de venezuelanos e ajudava em muitas coisas", relembra ela. "Curava feridas, levava materiais, resguardava vários estudantes na minha casa, dava de comer, coisas assim. Mais ou menos o que muito mais gente fazia." Por isso, ela afirma ter ficado muito surpresa com o grande destacamento de oficiais da GNB no seu edifício, no dia em que foi detida, em setembro de 2014. E o fato de que o próprio Quero Silva chefiou a invasão da sua casa. "Eles fizeram um destacamento como se fossem deter [o terrorista venezuelano] Carlos, o Chacal", comenta ela. Ela conta que a GNB fechou todos os acessos ao complexo residencial onde ela morava e tentou entrar na sua casa golpeando a grade. Eles aproveitaram para entrar quando ela abriu a porta para sua irmã advogada, que vinha ajudá-la diante da situação. Uzcátegui estava na residência ao lado de uma dezena de manifestantes a quem havia oferecido refúgio, devido ao recrudescimento da repressão nas ruas. Ela não sabe ao certo quantos agentes da GNB entraram na sua casa e calcula que tenham sido entre 20 e 30. Com eles, estava Quero Silva, que logo deixou claro seu interesse por ela. "Uma das mulheres guardas me disse: 'Senhora, sabe por que estamos aqui? Porque viemos buscá-la'", relembra ela. "E ali começou tudo. Quero Silva começou a me dizer coisas, que eu precisava me manter calada e não tinha direito a nada." O comandante a chamou de rainha das guarimbas ("barricadas"), o termo usado na Venezuela para designar o tipo de protesto realizado nas ruas contra o governo. "Ele me batizou assim, como a rainha das barricadas. Não sei se é um capricho. Na verdade, nunca consegui entender." "Acho que ele ficou obstinado comigo, mas não sei por quê", prossegue Uzcátegui. "Talvez ele quisesse me transformar em exemplo, para que ninguém mais fizesse o mesmo. Ele me tomou como exemplo para apaziguar os protestos." No momento em que ela foi detida, Quero Silva expressou sua satisfação. "Ele agarrou me agarrou pelo colete e me disse: 'Procurei você por tanto tempo e, por fim, encontrei. Vou embora feliz porque levo meu troféu.'" María Elena Uzcátegui quer que seja feita justiça com Quero Silva, não só por ela, mas por 'todas as famílias que perderam tudo, que perderam seus filhos'. BBC A partir dali, Uzcátegui começou um calvário que duraria cerca de quatro meses. Imediatamente após a detenção, ela foi transferida, junto com os outros presos, para o destacamento 47. "Ali, eles nos meteram em um quarto onde estava Quero Silva", ela conta. "Ele começou a nos dizer de tudo, que não éramos filhos de Deus, que todos nós iríamos para a prisão de Uribana, onde seríamos violentados." "Ele nos insultou e disse tudo o que poderia ocorrer para fazer com que nos sentíssemos mal." Depois, eles os levaram para um quarto onde, segundo ela, foi aplicada a chamada "tortura da luz branca". "Eles colocam uma luz branca de um dia até o outro e você não pode fechar os olhos porque, se fechar, eles batem em você", relata ela. "Em mim, não bateram porque mantive os olhos abertos. Mas, nos meninos, sim. Batiam neles na cabeça." Uzcátegui afirma ter ouvido Quero Silva dar todas as instruções sobre como os detidos seriam tratados. Ela o considera não só o seu torturador, mas também responsável por tudo o que passou a viver desde então. Foi apenas depois de 24 horas após a detenção que Uzcátegui conseguiu comer ou beber algo. Mas, na verdade, as condições do destacamento 47 eram mais suportáveis do que as que ela viria a enfrentar por cerca de três meses na prisão de Uribana. Ali, ela ficou presa ao lado de criminosos comuns e foi recebida pela diretora com uma ameaça: "Bem-vinda ao inferno." Uzcátegui passou sua primeira semana na prisão de Uribana encerrada no "tigrinho", uma cela de castigo sem janelas, nem ventilação. A partir daí, passou a viver em condições terríveis de insalubridade, com pouco ou nenhum acesso à água potável, passando fome, com um único uniforme que ela precisava usar praticamente sem roupa de baixo. Uzcátegui teve sarna, ficou privada dos seus medicamentos para asma e tireoide por várias ocasiões, desenvolveu uma doença cardíaca e chegou a perder 13 kg. A tudo isso, somem-se as ameaças constantes, vexames, humilhações e mesmo abusos sexuais. "Certa vez, disse à minha irmã que, para viver assim, eu preferia me suicidar porque não queria continuar vivendo", relata ela. Durante os meses em que passou detida, María Elena Uzcátegui perdeu cerca de 13 kg. Gentileza María Elena Uzcátegui Nos três meses em que Uzcátegui esteve em Uribana, seus familiares e amigos tomaram diversas medidas para conseguir sua libertação, o que finalmente ocorreu em dezembro de 2014, por motivos de saúde. Não foi uma liberdade total. Ela ficou em prisão domiciliar até 2017. Naquele ano, Uzcátegui fugiu por terra para a Colômbia, onde morou por cinco anos, graças a diversas pessoas que a acolheram e a ajudaram até que ela pudesse migrar para os EUA, onde moram outros de seus familiares. Uzcátegui atribui toda esta penúria a Quero Silva. Por isso, quando surgiu a proposta (que acabou não se concretizando) de que ela testemunhasse contra ele no julgamento migratório, ela pensou em aproveitar a ocasião, se chegasse a encontrá-lo, para dizer: "Você está aí onde, certa vez, eu estive por sua culpa, pelo seu abuso de poder." "Eu gostaria de ter dito isso a ele, não sei se talvez poderei ter a chance de dizer algum dia", comenta ela. Em relação à ação civil, Uzcátegui esclarece que se trata de buscar justiça, não vingança. "Queremos justiça para todas essas famílias que perderam tudo, que perderam seus filhos", afirma ela. "Entendo que ele é uma só pessoa e que há muitíssimas outras na Venezuela e muitos nos EUA que merecem enfrentar o que ele está passando." "Que seja justiça para muitos, embora seja para uma delas, por todos aqueles que não conseguiram e por todos os que estão mortos", conclui María Elena Uzcátegui.

FONTE: https://g1.globo.com/noticia/2026/03/15/nao-conseguia-acreditar-que-meu-torturador-vivia-livremente-nos-eua-os-venezuelanos-que-reconheceram-em-novela-na-tv-militar-que-os-prendeu.ghtml


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