Irmãos de menino morto após ser torturado e acorrentado vão para abrigo; Justiça decidirá guarda, diz Conselho Tutelar de SP
15/05/2026
(Foto: Reprodução) Menino era torturado há 1 ano por família, diz polícia
Dois irmãos do menino de 11 anos encontrado morto nesta semana após ser torturado e acorrentado em casa, na Zona Leste de São Paulo, foram encaminhados para um abrigo e terão a guarda definida pela Justiça.
As informações foram dadas ao g1 nesta sexta-feira (15) pelo Conselho Tutelar do Itaim Paulista, que acompanhou a polícia na ida à residência onde Kratos Douglas morreu e resgatou duas crianças: um menino de 2 anos e uma adolescente de 13, que é autista.
O pai, a madradasta e a avó paterna de Kratos foram presos pela polícia pelo crime de tortura com resultado morte do menino. A Justiça decretou as prisões preventivas dos três, que há pelo menos um ano estariam cometendo os maus-tratos.
Os dois irmãos de Kratos foram retirados do imóvel após o Conselho Tutelar identificar situação de vulnerabilidade. Foi aplicada a medida de acolhimento institucional, e o caso foi encaminhado à Vara da Infância.
“As duas crianças foram resgatadas pelo Conselho Tutelar e encaminhadas para acolhimento institucional. A Justiça foi comunicada e agora é responsável pela proteção delas”, disse ao g1 o conselheiro tutelar Ricardo Francisco.
Chris Douglas (à esquerda) foi preso por suspeita de torturar e matar o filho Kratos (à direita). Segundo a polícia, homem admitiu que acorrentava a criança
Reprodução
De acordo com o Conselho Tutelar, Kratos e o irmão de 2 anos estavam sob guarda da avó paterna, enquanto a menina de 12 anos, com autismo, estava sob guarda da madrasta de Kratos. Agora, a definição de quem ficará responsável pelos irmãos dele caberá à Justiça.
Segundo o conselheiro, nenhuma das três crianças frequentavam a escola. “O menino que morreu já não estudava desde 2024. Os outros dois também estavam fora da escola, mas isso ainda está sendo apurado”, afirmou Ricardo.
O Conselho Tutelar também publicou uma nota de repúdio em seu Instagram após receber críticas nas redes sociais por uma suposta omissão no caso.
“Informamos que a família não era acompanhada por este Conselho Tutelar e que não era de nosso conhecimento as violações ocorridas no local, reforçando que nem mesmo os vizinhos tinham conhecimento de que a criança residia no local e que nunca chegou ao nosso conhecimento nenhuma denúncia referente à família”, informa trecho do comunicado.
Segundo Ricardo Francisco, apenas o menino morto apresentava sinais de violência _ele nunca foi visto pela vizinhança. Os dois irmãos dele não tinham marcas de violência e eventualmente apareciam na rua com a família.
"Uma cena horrível a que encontramos naquela casa", disse Ricardo, que também encaminhou um relatório à Justiça sobre o caso.
Entre os críticos da situação em que Kratos se encontra está o advogado Ariel de Castro, especialista em direitos humanos e infância.
"É inaceitável que na maior cidade do país uma criança seja negligenciada e desconhecida dos órgãos públicos, ficando refém das torturas e maus tratos familiares, sem nenhuma intervenção para salvá- la", disse Ariel ao g1. "O caso é exemplo da fragilidade e até falência do sistema de proteção de crianças e adolescentes."
Entenda o caso
Conselho Tutelar do Itaim Paulista divulgou na sua rede social nota sobre o caso Kratos Douglas
Reprodução
O caso veio à tona na segunda-feira (11), quando Kratos foi encontrado morto na casa em que vivia, no bairro Cidade Kemel. A família havia pedido uma ambulância após o garoto passar mal.
Quando a equipe médica chegou, encontrou o menino sem vida, com sinais de violência física. O pai, Chris Douglas, de 52 anos, admitiu que acorrentava o filho pela perna no pé da cama para ele não fugir de casa, mas negou que o agredia.
A madrasta da criança, Camilla Barbosa Dantas Felix, de 42 anos, e a avó paterna da vítima, Aparecida Gonçalves, de 81, confirmaram que Kratos vivia com correntes para não escapar. Elas também negaram qualquer agressão.
A Polícia Civil investiga ainda se o pai pode ter filmado e vendido imagens da tortura do filho. Celulares, computadores e outros equipamentos apreendidos na casa passam por perícia para verificar a existência desse material.
A polícia aguarda laudos periciais para esclarecer a causa da morte e a dinâmica do crime. O g1 não conseguiu localizar as defesas dos presos para comentarem o assunto.
Madrasta Camilla Felix (à esquerda) e avó Aparecida Gonçalves (à direita) foram presas pela tortura que resultou na morte de Kratos Douglas
Reprodução/TV Globo