Artesão transforma palitos de fósforo em esculturas e já levou arte de Alagoas ao mundo
07/03/2026
(Foto: Reprodução) Arlindo Monteiro encanta pessoas com a criação de miniesculturas com palitos de fósforos
Com um bisturi nas mãos, cola, tinta e muita paciência, o artesão Arlindo Monteiro, de 64 anos, transforma simples palitos de fósforo em pequenas esculturas cheias de detalhes. O trabalho minucioso, que exige precisão e horas de dedicação, já ultrapassou fronteiras e ganhou destaque nacional, inclusive na abertura de uma novela da TV Globo.
Se você assistiu à novela “Da Cor do Pecado”, exibida em 2004, talvez já tenha visto de perto o trabalho do artesão Arlindo Monteiro, mesmo sem saber. As mini esculturas usadas na abertura da trama foram produzidas por ele, a convite do designer Hans Donner, responsável pelas vinhetas da emissora.
Arlindo criou versões em palitos de fósforo dos personagens da novela, em um trabalho minucioso que levou sua arte de Maceió para milhões de televisores em todo o país.
Abertura da novela Da Cor do Pecado, na TV Globo, em 2004
TV Globo
Arlindo dos Palitos
Conhecido como “Arlindo dos Palitos”, ele é considerado referência no tipo de arte que produz, rara no Brasil: mini esculturas entalhadas em palitos de fósforo. Ao longo da carreira, já criou cerca de 50 mil peças, espalhadas pelo Brasil e por outros países. “É gratificante pra qualquer profissional com 50 anos de arte ser chamado de mestre”, disse.
O talento também levou o artesão a participar de exposições internacionais, representando Alagoas em eventos na América do Sul.
“Já saí representando o estado de Alagoas por diversas vezes, no Brasil como um todo, quase... pro Chile, pra Argentina, fiz exposições em Córdoba e San Juan”, contou.
Arte minuciosa
Arlindo dos Palitos
João Ferro/Ascom Semtabes
No ateliê improvisado, o processo exige concentração total. Cada escultura nasce a partir de cortes delicados feitos com bisturi. A partir de um único palito, surgem figuras como flores, pássaros, santos e personagens da cultura popular.
Arlindo conta que, muitas vezes, perde a noção do tempo enquanto trabalha. “Às vezes a minha mulher vem aqui e diz: ‘rapaz, você já viu que horas são?’ Eu respondo: ‘rapaz, eu não tô preocupado com hora não’.”
Entre as peças que produz estão representações de santos como São Francisco de Assis, São Miguel Arcanjo e São Jorge, além de cenas do cotidiano e retratos de artistas. Algumas esculturas homenageiam nomes da música e do esporte.
Caminho no artesanato
Pernambucano da cidade de Bezerros, Arlindo vive em Maceió há cerca de 40 anos. A relação com o artesanato começou cedo. Filho de um sapateiro e de uma costureira, ele cresceu ajudando o pai no trabalho.
A habilidade manual também aparecia na escola “Quando tinha trabalho de colégio, todo mundo queria ficar comigo porque eu fazia os desenhos. Eu já me destacava.”
Antes de chegar aos palitos de fósforo, Arlindo experimentou vários tipos de arte: pintura em tela e esculturas feitas com troncos de coqueiro, por exemplo.
Um sonho que mudou tudo
Arlindo dos Palitos
Tv Asa Branca Alagoas/Reprodução
A mudança definitiva veio há 36 anos, quando ele teve um sonho que acabou direcionando o trabalho artístico.
“A primeira peça que eu fiz foi um Cristo crucificado. Eu sonhei, vi um Cristo talhado em um palito de fósforo.”
Desde então, os palitos se transformaram na principal matéria-prima do artesão.
Arte que resiste
Hoje, Arlindo divide o tempo entre o espaço de trabalho montado nos fundos de casa e o Mercado do Artesanato de Maceió, onde expõe e vende suas peças. Mesmo com reconhecimento fora do estado, ele diz que a arte manual ainda precisa ser mais valorizada localmente.
“Aqui em Maceió o nosso trabalho é muito mais valorizado pelo pessoal de fora do que pelo pessoal daqui. Tem muita gente que mora aqui e nunca foi ao Mercado do Artesanato.”
Depois de 51 anos dedicados ao artesanato, ele segue produzindo novas peças todos os dias.
“Eu acho que a grande vantagem de você fazer qualquer coisa é fazer porque ama. Aqui eu amo o que faço. Faço uma peça, fico namorando ela e digo: ‘meu amigo, você fez uma peça muito top’. Aí passa um tempo e eu digo: ‘vou fazer outra melhor’.”
Entre palitos minúsculos e esculturas delicadas, o artesão continua subindo degrau por degrau na própria trajetória.
“O que eu peço a Deus é somente sanidade e saúde, para viver com dignidade do que faço.”