6 em cada 10 mães negras ainda não conseguiram entrar no audiovisual em SP, aponta pesquisa
16/08/2026
(Foto: Reprodução) Cristina de Assis Teixeira, Paula Cristina e Ainah Corrêa
Arquivo pessoal
Mais de seis em cada dez mães negras que participaram de uma pesquisa sobre o mercado audiovisual em São Paulo ainda não conseguiram ingressar no setor. Das 356 mulheres ouvidas no estado, 227 (63,7%) disseram não ter conseguido entrar no mercado, enquanto 129 (36,2%) afirmaram que já estão atuando na área.
O levantamento foi realizado pelo Grupo Nexa Cine e ouviu 646 mães negras de diferentes regiões do Brasil. A dificuldade de acesso aparece acompanhada de uma percepção negativa sobre a inclusão racial no setor: 83,4% das entrevistadas em São Paulo não consideram o audiovisual brasileiro inclusivo para pessoas negras.
Entre as paulistas, 241 (67,6%) disseram que desejam iniciar uma carreira no audiovisual e 115 (32,3%) afirmaram que querem aprimorar técnicas e conhecimentos.
Os relatos apontam obstáculos como o custo da formação, a dificuldade de conciliar maternidade, trabalho e estudos, a falta de oportunidades para a primeira experiência profissional e o acesso restrito às redes de contatos, que muitas vezes são importantes para conseguir trabalhos no setor.
Para Mill Müller, CEO do Grupo Nexa Cine, os resultados mostram que o mercado ainda precisa transformar os discursos sobre diversidade em oportunidades concretas. Segundo ela, a maternidade também aparece como um fator de exclusão.
“Também há relatos de exclusão quando as empresas descobrem que a candidata é mãe, especialmente mãe solo. O desafio do setor é transformar o discurso de diversidade em condições reais de acesso e permanência”, afirmou.
O sonho continua vivo
A história de Cristina de Assis Teixeira mostra que a maternidade pode tornar ainda mais complexa a construção de uma trajetória profissional no audiovisual. Aos 41 anos, ela mora na Bela Vista, no Centro de São Paulo, e busca ampliar sua atuação como atriz em cinema, televisão, streaming, mídias digitais e publicidade.
Formada em Teatro, Cristina também construiu uma carreira de mais de 15 anos como executiva em grandes empresas. É mãe de dois meninos, de 12 e 8 anos, e conta que precisou conciliar a formação artística, a maternidade e o trabalho. Apesar das dificuldades, ela diz que nunca abandonou o desejo de atuar.
“Construí uma carreira de executiva, criei dois filhos, me formei em teatro e continuei investindo na minha formação artística, mesmo quando o caminho parecia mais difícil. Nunca deixei o sonho de atuar para trás.”
A roteirista Paula Kristina da Silva, que também participou da pesquisa, diz que, quando retomou sua trajetória no audiovisual, há cerca de cinco anos, o filho já tinha 13 anos, e ela contava com o apoio da família e do marido.
Para ela, essa estrutura faz diferença e não deve ser considerada uma realidade de todas as mulheres.
“Sei que muitas mulheres negras que não contam com essa rede enfrentam mais dificuldades para ingressar e, principalmente, permanecer no audiovisual”, afirma.
Paula começou a trajetória na área em 2001, quando entrou na faculdade de Rádio e TV. Em uma turma de 37 estudantes, havia apenas duas alunas negras, segundo ela. O curso foi interrompido no terceiro semestre por dificuldades financeiras.
Anos depois, voltou a estudar audiovisual. Fez cursos de roteiro, documentário e desenvolvimento de projetos e participou de produções independentes. Hoje, atua como roteirista e desenvolve projetos autorais.
Ela defende a ampliação de cursos gratuitos e bolsas para mães negras, mas afirma que é necessário ir além da capacitação.
“É importante que esses programas ofereçam acompanhamento profissional, oportunidades de networking e conexões reais com o mercado de trabalho. Hoje encontramos mais formações, mas ainda faltam oportunidades concretas para ingressar no setor.”
Indicações, racismo e portas fechadas
A publicitária Ainah Corrêa, de 44 anos, vive em Campinas, no interior paulista, e está há quatro anos em transição para o audiovisual. Mãe de dois filhos, de 16 e 15 anos, ela pretende trabalhar principalmente com roteiro e atualmente atua com edição de conteúdo para redes sociais.
Para ela, um dos principais problemas está na forma como as oportunidades circulam.
A maternidade, segundo Ainah, também pesa principalmente em projetos que exigem mais dedicação. Ela diz não ter colegas mães ou lideranças que sirvam de referência sobre a possibilidade de construir uma carreira no setor conciliando a profissão com a criação dos filhos.
“O mercado do audiovisual tem bastante preconceito com as mães, principalmente em projetos maiores, que envolvem maior dedicação”, afirma.
Ela também relata experiências de racismo e machismo que considera estruturais e, muitas vezes, difíceis de identificar de maneira explícita.
“Nenhum recrutador ou colega de trabalho assume que não vai te chamar para um trabalho por preconceito, mas fica implícito nas entrelinhas, nas seguidas negativas e nas relações de trabalho mais diretas”, diz.
Ainah afirma que hoje consegue trabalhos principalmente com pessoas que já conhecem sua produção. Segundo ela, a dificuldade aumenta quando tenta iniciar uma parceria com profissionais ou grupos novos.
As experiências relatadas pelas três mulheres têm diferenças, mas se encontram em um mesmo ponto: a formação, sozinha, não garante acesso ao mercado.
O que muda para abrir espaço
Para o Grupo Nexa Cine, os resultados apontam a necessidade de ações voltadas tanto à entrada quanto à permanência de mulheres negras no audiovisual.
A empresa afirma que produtoras, emissoras e plataformas de streaming têm papel importante nesse processo, especialmente por concentrarem grande parte das oportunidades profissionais do setor.
“Diversidade também é inteligência de mercado”, afirma Mill Müller.
O Grupo Nexa Cine reúne Nexa Tech, Nexa Eventos, Nexa Estúdios e Instituto AfroRec. Segundo a empresa, o Instituto AfroRec já formou mais de 2.500 profissionais.
A partir da pesquisa, o grupo afirma que pretende utilizar sua plataforma para ampliar a visibilidade de mães negras. Entre as medidas previstas estão maior destaque nos resultados de busca para empresas, valorização de portfólios e depoimentos de contratantes anteriores, além de formação e capacitação.
O Grupo Nexa Cine foi selecionado pelo programa de aceleração Amplifica Cine, iniciativa da Prefeitura de São Paulo executada pela Agência São Paulo de Desenvolvimento (ADE SAMPA) em parceria com a Spcine.
Como a pesquisa foi feita
A pesquisa foi realizada pelo Grupo Nexa Cine, por meio da Nexa Tech Research, com metodologia quantitativa e questionário estruturado aplicado online. A coleta ocorreu entre 4 e 16 de junho de 2024 e reuniu 646 respostas voluntárias de mães negras de diferentes regiões do Brasil.
O questionário abordou temas como perfil sociodemográfico, maternidade, trajetória profissional, percepção sobre o mercado audiovisual, acesso à formação, empregabilidade e condições de vida. Após a coleta, os dados passaram por tratamento estatístico e análise descritiva.
Os dados apresentados nesta reportagem consideram o recorte de 356 respondentes de São Paulo.